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O jeito peculiar de gestão do dono da EZTec

14/05/2014 11:25
"Só construo onde consigo ir a pé. Posso ir até Jundiaí, mas não até Manaus", diz Zarzur, no vigor dos seus 80 anos
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Religiosamente, quando chega à incorporadora EZTec para trabalhar de segunda à sexta-feira, por volta de nove da manhã, o empresário Ernesto Zarzur já começa a circular pelo prédio de três andares da avenida República do Líbano, na zona Sul de São Paulo. Atento a detalhes, acompanha de perto a decisão de compra de terrenos, o desenvolvimento de projetos e a definição de prazos de lançamentos e de preços dos imóveis. Aos 80 anos, o fundador da incorporadora que se tornou uma das preferidas do mercado não quer parar de trabalhar. "Não penso em mudar nada na minha vida."

No dia a dia da empresa, negócios e família se mesclam o tempo todo. Os quatro filhos homens estão no primeiro escalão da EZTec e, conforme diretriz criada pelo empresário, em 2006, seguem rodízio para ocupar a presidência da incorporadora. Desde maio do ano passado, Marcelo Ernesto Zarzur, está à frente do cargo executivo mais alto da empresa. Antes dele, foi a vez dos irmãos mais velhos, Flávio Ernesto Zarzur e Silvio Ernesto Zarzur, que fundaram a EZTec, em 1979, com o pai.

A previsão é que Marcelo fique no cargo até 2015. A partir daí, o irmão Marcos Ernesto Zarzur - todos levam o nome do pai no sobrenome - terá direito a ocupar a presidência. "Mas isso dependerá de ele querer ser presidente", conta o fundador da EZTec. Os dois genros - Mauro Alberto e Roberto Mounir Maalouli - também fazem parte da gestão, como diretores administrativo e jurídico, respectivamente.

Oito dos 16 netos integram os quadros da incorporadora. "Todos os netos entram no buraco da terra para começar", conta Zarzur, que diz fiscalizar "de longe" a atuação deles. Na prática, é na fase de terraplenagem de alguma obra da EZTec que os familiares começam a trabalhar na companhia. O neto mais velho cuida das contas do avô e participa do atendimento a bancos e a escritórios de arquitetura.

Filhos, netos e alguns colaboradores mais próximos - como o diretor financeiro e de relações com investidores, Emilio Fugazza, também tratado como filho por Zarzur - cumprimentam o empresário com um beijo no rosto. "Se dou uma volta na empresa, uns 15 se levantam para me beijar. É um costume árabe", conta o filho de libaneses, nascido e criado na capital paulista.

O contraponto ao carinho é o limite que a liberdade de cada um não ultrapasse o espaço oferecido pelo patriarca. Não se pode, segundo Zarzur, deixar de seguir uma diretriz da EZTec. "Mas a diretriz pode ser mudada em conjunto", pondera. A relação com os colaboradores extrapola o profissional nos conselhos e no incentivo para que economizem parte do que recebem.

Nos almoços de segunda e sexta-feira servidos na casa de Ernesto Zarzur, a integração entre família e trabalho fica explícita. Nessas refeições, o elenco fixo são o casal, os filhos e os netos, mas, em cada um deles, uma parcela dos colaboradores da empresa de todos os níveis também é convidada a participar. São encontros mais de confraternização do que de trabalho e, se algum colaborador expõe um problema, o assunto é tratado depois do almoço.

Coordenados pela esposa Esther Zarzur, os almoços começam a ser servidos ao meio-dia, quando os netos mais novos chegam da escola. A comida continua posta à mesa para quem passa por lá mais tarde, até às 14h30. São refeições de comida farta - cerca de 20 opções entre saladas e pratos quentes -, com pelo menos algum representante da culinária libanesa, como o quibe de peixe, feito por dona Esther com pescada branca e temperado com pimentas síria e do reino, e "um pouquinho de cominho", segundo ela.

Alguns pratos começam a ser preparados no dia anterior, mas dona Esther não demonstra estresse diante da situação recorrente de receber até 40 pessoas para comer em casa duas vezes por semana. Somente o casal, os filhos, as noras, os genros e netos somam 32 pessoas. No dia do almoço em família do qual o Valor participou, a matriarca de 76 anos tinha acordado cedo e ido nadar no clube Monte Líbano, antes de colocar a mão na massa.

As refeições são servidas em três mesas de salão decorado com tapetes persas, localizado ao lado do jardim de inverno, e na mesa de 12 lugares da sala adjacente. Há 33 anos, Zarzur vive com a família em casa modernista projetada pelo urbanista Lucio Costa e comprada do empresário João Euclydes Bordon.

Dentro ou fora dos limites da EZTec, não falta carisma ao empresário de 80 anos que abandonou a escola, aprendeu a ler e a escrever em casa e, nos primeiros anos, após o lançamento inicial de ações (IPO) da companhia, em 2007, tomou decisões contrárias ao senso comum do mercado.

No primeiro semestre de 2008, quando crescimento era a palavra de ordem no setor, a EZTec, que já tinha lançado alguns empreendimentos nos primeiros meses, reduziu pela metade o que faria no ano. A principal razão foi a desapropriação pela Prefeitura de São Paulo, por meio de decreto que acabou revisto meses depois, de um terreno em que seria desenvolvido projeto com participação da empresa. Pesaram também as decisões de Zarzur de colocar o pé no freio em função da crise financeira internacional e de manter a atuação, praticamente, na cidade de São Paulo.

"Declarei, em 2008, que não ia fazer nada. Os concorrentes me chamaram de burro. Os minoritários disseram: 'o senhor é louco. Demos dinheiro para o senhor construir e o dinheiro está aplicado'", relembra Zarzur. Mas, poucos dias após o principal marco da crise financeira internacional, a EZTec lançou um empreendimento, assim como em novembro daquele ano, quando as incorporadoras tinham deixado de apresentar novos projetos ao mercado, num cenário de acirramento das turbulências.
 

Primeira incorporação foi realizada em 1964 e levou o nome do filho Marcelo

 

Em 2009, o governo anunciou o programa Minha Casa, Minha Vida, e várias companhias com atuação tradicional em projetos de médio e alto padrão decidiram se expandir para o segmento de baixa renda. Zarzur manteve o foco da EZTec.

Mais tarde, quando crescimento acentuado, expansão geográfica e diversificação de faixa de renda deixaram de ser considerados prioridades, a EZTec, que não seguiu modismos, já estava ajustada às demandas. "O conservadorismo foi a palavra-chave da receita de sucesso da EZTec", diz o analista de construção da BB Investimentos, Wesley Bernabé. As margens mais elevadas entre as incorporadoras listadas fizeram com que se tornasse queridinha do mercado. Em 2013, a receita líquida da empresa foi de R$ 1,14 bilhão, e a margem bruta ficou em 52,3%.

Desde a estreia na BM&FBovespa, em junho de 2007, até ontem, os papéis da EZTec tiveram alta de 188,86%, ante queda do Ibovespa de 0,39%. Ao ser questionado se as escolhas na contramão do que o mercado esperava têm relação com não ter se adaptado a ir à escola, ter sido educado em casa por professores particulares e protegido pela mãe, Zarzur não titubeia na resposta sem modéstia: "minha inteligência é nata".

O fundador da EZTec conta que trabalha 24 horas por dia, mesmo indo dormir às 20h30 e acordando às 7h30 ou 8h00. "Às vezes, durmo com um problema e acordo com a solução." Diz que gosta mais de trabalhar do que de rezar, ao contrário da esposa.

À tarde, vista obras, principalmente aquelas em que os netos têm participação. Há alguns anos, a esposa começou a acompanhá-lo. Dona Esther não desce do carro, olha o marido de longe e não permite que ele suba nos prédios em construção.

Com frequência, Zarzur retribui a companhia, na volta, quando vai ao supermercado com a esposa. Conta que observa a cesta de compra dos consumidores "para entender a situação do país". Se as pessoas estão comprando laticínios e embutidos, "o país está bombando", mas se só levam farinha, feijão, arroz, óleo e sal, "está ruim", segundo ele.

Perguntado sobre qual o seu maior talento, Zarzur responde que é "comandar", incluindo "apaziguar e manter a equipe fechada". "Ele é extremamente exigente, cobra muito dos filhos e traz harmonia à condução do negócio", afirma um analista que acompanha o setor.

Na avaliação do diretor de relações com investidores, a opinião de Zarzur é "fundamental" na empresa: "o Ernesto é muito simples na forma de olhar as coisas, enquanto eu, às vezes, vejo três ou quatro lados, e os filhos dele também".


 

No formato como as discussões são conduzidas na EZTec, é possível haver opiniões diferentes, de acordo com o diretor de relações com investidores, mas depois que uma decisão é tomada, "vai todo mundo naquela direção". "Convencer é um exercício de cidadania dentro da EZTec", afirma Fugazza.

Segundo o empresário, existem discussões na companhia. "A discussão existe. Sou centralizador até determinado ponto, naquilo que sei", afirma. Quando tem dúvidas sobre algum assunto, diz não hesitar em pedir ajuda. Por exemplo, nas situações em que recorre ao seu diretor de RI sobre questões relacionadas ao mercado de ações. "Se uma decisão é necessária na companhia, eu dou a última palavra realmente", reconhece Zarzur.

Mas o fundador da EZTec também revê as próprias opiniões em alguns momentos. Exemplo disso é que, até bem pouco tempo, ele queria que todos os netos fizessem carreira na empresa. Recentemente, porém, tem estimulado eles a serem empreendedores, no setor ou em outra área. O apoio do avô será por meio de conselhos e do capital para o pontapé inicial.

Na condução da EZTec, o olho do dono não para de buscar novas possibilidades de tornar o boi mais rentável. É o caso do plano de aumentar a parcela de clientes com financiamento da incorporadora após a entrega das chaves, quando forem aceitos na triagem da companhia, mas caso tenham a análise de crédito barrada pelo banco.

"A EZTec só é tão rentável por causa do olhar do dono e dos filhos", diz o analista de construção da Fator Corretora, Renato Maruichi, acrescentando que a empresa respeita os minoritários, sem ter assimetria de informações e com boa comunicação pela área de relações com investidores. "Eu me preocupo mais com meus acionistas do que com meus filhos. Meus minoritários precisam de mim", diz Zarzur.

Se, na onda de abertura de capital das incorporadoras, as que não tinham gestão familiar chamaram mais a atenção do mercado, a percepção atual é inversa. "As empresas do setor com gestão familiar são as que têm mais rentabilidade", diz um analista que cobre o setor. Na EZTec, o processo de sucessão implantado, com rodízio dos filhos, possibilitou consistência nos resultados, segundo Bernabé, da BB Investimentos.

A mirada de Zarzur sobre o rebanho não se limita ao curto prazo: "A ideia é manter expansão moderada. Mas vamos chegar a um ponto em que não vamos mais crescer e nos tornaremos uma distribuidora de resultados." Com crescimento ou estabilidade, a intenção de atuar só onde a vista alcança continua. "Só construo onde consigo ir a pé. Posso ir até Jundiaí, mas não até Manaus."


Fonte: Valor Econômico, Chiara Quintão - 13.05.2014
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