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Viajar é preciso

02/08/2010 12:00
Pesquisa revela que, entre os gastos mais importantes dos milionários latino-americanos, as viagens ao exterior aparecem em primeiro lugar

Paris, Londres, Ilhas Seychelles, Bali, Mônaco, Côte d’Azur… Destinos desejados por muitos, mas que cabem no bolso de poucos. Porém, para alguns, viajar não é apenas uma amenidade. Enquanto a maioria sonha em ter uma casa ou conseguir pagar as contas em dia, as viagens ao exterior aparecem em primeiro lugar entre as prioridades dos milionários da América Latina. É o que mostra um levantamento feito em 20 países pela Barclays Wealth, área de gestão de fortunas do banco inglês, em parceria com a Ledbury Research.

A pesquisa mostra que os gastos com viagens ao exterior são prioridade para 75% dos milionários latino-americanos, perdendo apenas para os europeus, com 83%. Já entre os americanos, 66% colocaram as viagens entre os gastos mais relevantes, enquanto entre os asiáticos, 72%.

No total, foram ouvidas 2 mil pessoas classificadas como ricas – aquelas com pelo menos 1 milhão de libras em aplicações financeiras (equivalente a US$ 1,56 milhão ou R$ 2,75 milhões) – e outros 200 investidores ultrarricos, com mais de 10 milhões de libras (US$ 15,6 milhões ou R$ 27,6 milhões). A pesquisa foi realizada entre os meses de fevereiro e março deste ano.

Um dos motivos que podem explicar a preferência dos milionários latino-americanos pelas viagens está justamente no fato de a América Latina ter registrado por muito tempo moedas desvalorizadas, o que dificultava a ida ao exterior. “E agora o anseio é grande”, diz Ernesto Leme, sócio responsável pela área de Wealth Management da Claritas. Os brasileiros, por exemplo, querem conhecer outros países. “Sem falar que viajar pelo Brasil muitas vezes sai mais caro.”

Mas pode haver também uma questão cultural. Fazer uma viagem ao exterior é visto como uma forma de status na América Latina, afirma René Werner, diretor da Werner & Associados e especialista em governança familiar e corporativa.

Em contrapartida, os americanos não costumam viajar muito ao exterior, preferindo explorar o próprio país, ressalta Otávio Vieira, diretor de investimentos da Safdié Gestão de Patrimônio, lembrando que apenas 22% dos americanos têm passaporte.

As economias para o futuro aparecem em seguida entre os gastos mais importantes entre os donos de grandes fortunas da América Latina, com 73% (ver tabela acima). Conhecidos pela alta taxa de poupança, não é de se estranhar que os asiáticos tenham ficado em primeiro lugar nesse item, com 80%, quando questionados sobre as aplicações para o futuro.

Já o gasto com educação dos filhos também foi apontado por 73% dos milionários latino-americanos como relevantes – o maior percentual entre as regiões. “Como o sistema não provê educação de qualidade, esse é um ativo considerado muito importante na América Latina”, diz Vieira, da Safdié. “No Brasil, particularmente, a educação está muito ligada ao nível de renda”. Nos Estados Unidos, por sua vez, como a educação básica é praticamente gratuita, economizar para o futuro acaba sendo mais importante, ressalta o diretor da Werner & Associados.

Os milionários da América Latina consideram que ficaram mais pobres por causa da crise do que os abonados dos Estados Unidos. Entre os pesquisados, os latino-americanos só perderam para os europeus quando questionados sobre o impacto da turbulência sobre suas fortunas pessoais. Entre os europeus, 46% disseram que sua riqueza foi afetada pela crise. Já entre os ricos da América Latina, 41% afirmaram que seus patrimônios caíram. Entre os americanos, a fatia que teve perda de riqueza foi de 37% e, entre os asiáticos, 33%.

Na visão de Werner, essa diferença de percepção ocorre por conta da maneira como a formação de riqueza é tratada nos diferentes países. Na América Latina, em especial no Brasil, a liquidez dos donos de grandes fortunas normalmente é usada no investimento produtivo, que foi muito afetado pela crise, ressalta o especialista. “Por isso, a percepção de perda de riqueza é grande.”

Quando o assunto é caridade, os milionários americanos aparecem como os mais preocupados – 41% colocaram a filantropia como importante, para 25% dos latino-americanos. Nos Estados Unidos, há dois motivos para a atenção maior, avalia Vieira, da Safdié. “Primeiro, por conta dos benefícios fiscais”, diz. “Segundo, por se tratar de algo cultural, pois é a filantropia que dá projeção às pessoas na comunidade.”

Já por aqui, fazer caridade não é tão simples como parece, afirma Leme, da Claritas. “Tenho um cliente que há um ano e meio tenta ajudar a área de pesquisa de uma universidade pública e não consegue, pois não se sabe qual é o veículo mais adequado para isso.”

Outro dado interessante do levantamento é que os milionários da América Latina são os mais preocupados com as mudanças climáticas, com 84% das respostas. Em seguida, ficaram África do Sul, com 81%, e Hong Kong, com 76%. Os Estados Unidos, entretanto, aparece no fim da lista, com 39%.

O estudo do Barclays diz ainda que os investidores estão colocando o dinheiro em caixa. Segundo o banco, 51% dos consultados estão evitando investimentos de alto risco mais fortemente depois da crise e apenas 7% não estão. A preservação da riqueza passou a ser uma preocupação maior para 57%.

O mundo passou por uma das maiores crises já vistas e muitos investidores sofreram porque aplicaram em algo que não entendiam, diz Werner. O caso Bernard Madoff, nos EUA, que se revelou uma pirâmide financeira, abalou ainda mais a credibilidade que os milionários tinham em seus gestores. “Agora, eles querem explicação sobre os produtos que estão comprando.”

Tanto que o aconselhamento financeiro aparece em xeque. Menos da metade dos ouvidos disse acreditar nos conselhos sobre onde investir e três quartos se veem como conhecedores quando o assunto é investimento. O levantamento mostra ainda que os ricos estão procurando se informar mais sobre aplicações financeiras. Conforme a pesquisa, cerca de 30% estão lendo mais jornais, revistas ou sites econômicos do que antes da crise, e 26% dizem que estão conversando mais com amigos e familiares sobre o assunto. Segundo o Barclays, 27% dos ouvidos disseram que estão conversando com seus aconselhadores financeiros com mais frequência.

O investidor passivo, aquele que delega a atividade de aplicação financeira a outros, está claramente fora de moda, ressalta o relatório do Barclays. Os ricos estão dedicando mais tempo no gerenciamento de seus investimentos. Os dados mostram que 25% passam de duas a cinco horas por semana investindo ativamente seu dinheiro. Outros 16% disseram passar de cinco a 20 horas cuidando do patrimônio e 10% passam mais de 20 horas por semana.

Fonte: Valor Econômico 02.08.10

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