Macrotransição
SP • 11 3075-3034 - RJ • 21 9.9660.4661
Av. Paulista, 1.765 - 7º andar - São Paulo - SP

Primeira fabricante de cintos de segurança luta contra falência

28/10/2011 17:52
A Huziteka, primeira fabricante de cintos de segurança no Brasil, luta contra a falência. Há 46 anos no mercado, a empresa de gestão familiar com sede em Itu, no interior de São Paulo, sofre com a concorrência de produtos importados e deve demitir 75% dos funcionários nos próximos meses. “Vamos sair de 400 pessoas e ficar no máximo com 100”, diz Enzio Abbruzzini, 82 anos, dono da empresa que, no auge, chegou a empregar mil funcionários.

Segundo ele, os problemas da Huziteka começaram em 2005, quando a negociação para reajuste de preços com as montadoras ficaram mais difíceis. “Eles determinam um preço máximo que estão dispostos a pagar e se você não se encaixa nisso, procuram outro fornecedor”, diz. “Os nossos custos subiram e os impostos são altíssimos. Mas agora enfrentamos um sistema chinês e concorremos com produtos que entram aqui sem impostos e com preço lá embaixo.”

Com isso, em poucos anos o faturamento da empresa saiu da faixa de R$ 12 milhões para R$ 3 milhões. “Acumulamos prejuízo muito grande. Estava trabalhando com 30% de prejuízo, então resolvemos parar de produzir cintos para a Volkswagen há pouco mais de um mês”, afirma Abbruzzini. Em 2011, a Huziteka produzia cerca de cinco mil cintos por dia para a montadora – apenas um terço de sua capacidade instalada, que é de 15 mil cintos ao dia. Procurada pela reportagem, a Volkswagen informou que não vai comentar as informações apresentadas na matéria.

Sem seu principal cliente e parceiro – a Huziteka aprendeu a fazer cintos de segurança com engenheiros alemães da Volks em 1968 – a empresa diminuiu ainda mais a produção e passou a demitir funcionários. “É triste porque fomos os primeiros a produzir cinto de segurança no Brasil. O fusca foi o primeiro automóvel com cinto aqui e fomos nós que fizemos o cinto. Mas simplesmente não tinha mais dinheiro para bancar a fabricação”, conta o empresário. Outro contrato importante, que se encerrou há quase dois anos, previa o fornecimento das peças para a Fiat.

Hoje, a Huziteka continua a vender cintos para fabricantes de ônibus, como a Mercedes-Benz, e busca retomar negócios com a Toyota. Além disso, Abbruzzini diz que o foco agora é a fabricação de pré-tensionadores de cintos de segurança – um equipamento que reduz os riscos de lesões e de escorregamento do banco do automóvel em caso de acidentes. Além da sede, em Itu, a Huziteka também possui unidades em Salto, São Paulo e Bahia.

Para poder pagar as dívidas, o empresário descendente de italianos da Calábria conta que está vendendo propriedades particulares. “Quero honrar com meus compromissos. Vão-se os anéis, mas ficam os dedos”, diz Abbruzzini, que recentemente ficou um mês e meio internado na UTI, “de tanto estresse”. Ele conta que estão atrasados os pagamentos de parcelas do Programa de Recuperação Fiscal (Refis), de fornecedores e salários de funcionários. “Para ajudar, cortaram meu crédito, até o pessoal. Fui a Brasília, pedi ajuda até ao Procurador da República, mas não consegui nada. O jeito é resolver por aqui”, conta o empresário.

O Sindicato dos Metalúrgicos de Itu e Região afirma que a empresa tem negociado com trabalhadores e busca forma de quitar as dívidas. “Algumas pessoas foram demitidas, mas não recebem a rescisão. Isso é um problema porque não podem dar entrada no Fundo de Garantia”, afirma Dorival Jesus do Nascimento, presidente do sindicato.

“Muita gente saiu de férias e não recebeu pagamento e a empresa precisa demitir mais gente, mas não consegue porque não encontrou ainda a forma de pagar a todos”, afirma o sindicalista. Segundo ele, grupos de trabalhadores estão entrando na justiça para tentar receber a rescisão. "A Huziteka fabrica produtos de muita qualidade, mas o que existe na empresa é um problema de gestão", diz Nascimento. Em 1997, a empresa recebeu prêmio da Volkswagen pela qualidade de seus produtos.

Problema comum

A situação de Abbruzzini é semelhante à de muitos empresários brasileiros. “Os problemas que afligem o setor automobilístico são comuns a empresas menores em qualquer segmento. O cenário de ausência de crédito, tributação alta e concorrência com importados desafiam a todos”, diz Eduardo Senra Coutinho, coordenador do curso de administração do IBMEC-MG.

Ele acredita que, neste cenário, é natural que algumas empresas deixem de existir. “Faz parte do jogo de mercado”, diz. O movimento é ainda mais evidente no setor automobilístico, segundo ele, já que as empresas de peças em geral dependem de um único grande cliente. “O caminho é aumentar a produtividade, e ainda assim não há garantias. Vale a lei do bom preço e qualidade do produto”, afirma Coutinho.

Na avaliação de Paulo Vicente, professor de estratégia empresarial da Fundação Dom Cabral, “há um processo triste e cada vez mais forte de desindustrialização do Brasil”. As empresas brasileiras devem continuar perdendo competitividade, segundo ele, devido aos elevados custos com logística, impostos e mão de obra. Além disso, faltam estímulos à inovação no País.

Para Vicente, a decisão adotada pelo governo de elevar impostos para produtos importados é uma saída de curto prazo, “que estimula a ineficiência das empresas brasileiras e não resolve os reais problemas”. A solução, segundo ele, passaria uma ampla reforma tributária – ainda distante de ocorrer. “Enquanto isso, vamos ter essa sangria de empresas brasileiras”, diz.

Fonte: IG.com.br, Danielle Assalve - 21.10.2011

Nome:
E-mail:
Comentário:
Digite os caracteres abaixo:
Comentário enviado com sucesso!
Aguarde a aprovação!