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O crepúsculo de Agnelli

08/10/2010 12:00
A maior dinastia industrial da Itália vive uma crise inédita na sucessão de seu patriarca no comando da Fiat

Há 103 anos, um jovem oficial do 3º Regimento dos Dragões do Reino de Savóia iniciou uma épica batalha industrial. Embainhou a espada, aposentou a elegante farda da cavalaria e empenhou a energia e a disciplina de militar na construção de um sonho: fabricar automóveis. Giovanni Agnelli, então com 33 anos, não tinha mais que um pequeno regimento, 35 operários, aquartelado em uma fábrica nos arredores de Turim, na Itália. Mas lançou-se no campo de guerra empresarial com ambição poucas vezes vista. Em 1900 sua Fabbrica Italiana Automobili Torino, apelidada de Fiat, conseguiu montar apenas 24 veículos. Dez anos depois, a produção anual era de 1.200 automóveis e as ações de sua empresa eram disputadas por investidores na bolsa italiana. Agnelli tornou-se o marechal capitalista da Itália. A Fiat, um poder paralelo ao do Estado desde então. Ainda há um Agnelli no comando do clã, também Giovanni como o avô fundador. Mas Gianni, como é conhecido, tem 81 anos, está doente e cansado e o exército de Turim demonstra já não ter forças para enfrentar outros titãs da indústria automobilística. A constatação inquieta o primeiro-ministro Silvio Berlusconi e aflige todo um país: os Agnelli vivem seu crepúsculo, levando com eles a Fiat, um orgulho nacional.

Durante praticamente 40 anos, a companhia viveu à imagem e semelhança de Gianni, homem de brilho incomum e personalidade turbulenta. Entre as suas múltiplas facetas, estavam a de playboy de notórias conquistas – seu rol de beldades incluía a feliniana atriz Anita Ekberg, a hollywoodiana Rita Hayworth e Pamela Churchill (filha do líder britânico Winston Churchill) – e a de empresário hábil, de estilo maquiavélico, dono de uma cadeira vitalícia no Senado italiano. Nada disso se transmite por hereditariedade. À medida que sua luz se apaga, no entanto, fica mais evidente que a dinastia carece de um novo e carismático líder. Sob o tronco do patriarca, a árvore genealógica dos Agnelli abriga nada menos que 150 descendentes – primos, sobrinhos, netos e bisnetos. Destes, cerca de 80 mantêm participações acionárias na holding familiar, a Giovanni Agnelli & Company, que controla o império. Com os negócios em queda – a estimativa para este ano é de um prejuízo superior a US$ 500 milhões – e o velho comandante abatido por um câncer na próstata, é cada vez mais difícil mantê-los em harmonia – e cada vez maior o número daqueles que preferem repassar o controle do grupo e embolsar a fatia correspondente. Uma tênue possibilidade da permanência da supremacia e da união familiar depende da capacidade de dois homens de resistir às conspirações de seus próprios parentes: Umberto, 68 anos, irmão mais novo de Gianni, e John Philip Elkann, 26, o neto a quem o patriarca adoraria entregar o trono da Fiat.

Basta saber se a voz de Gianni Agnelli ainda é capaz de se sobrepor às dos investidores e banqueiros que desejam ver novos nomes no volante da companhia. Em julho passado, quando o capo da Fiat sofria em seções de quimioterapia em um hospital de Nova York, rumores de sua morte provocaram uma súbita e perversa valorização das ações da empresa. A fria lógica dos mercados indica que a saída definitiva do velho Gianni de cena forçosamente acarretará a venda da Fiat pelos seus herdeiros. A americana GM, que em 2000 adquiriu 20% da montadora italiana, tem a primazia caso isso venha a ocorrer. Para toda uma nação, seria uma dolorosa capitulação às forças do capital estrangeiro.

Fonte: IstoÉ Dinheiro 04.09.10

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