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Ele mantém a chama acesa

26/12/2010 12:00
Claudio Petrycoski, fundador da Atlas.
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Claudio Petrycoski transformou uma metalúrgica artesanal numa fábrica de eletrodomésticos presente em grandes redes de varejo

Quando criança, o paranaense Claudio Petrycoski, de 61 anos, fundador da empresa de eletrodomésticos Atlas, gostava de passar o tempo vendo seu pai moldar peças de ferro para transformá-las em fogões a lenha, vendidos em Pato Branco, no interior do Paraná. “Na época, demorava semanas para um fogão ficar pronto”, diz ele. “Hoje, produzimos mais de 6.800 fogões num só dia.” Nas últimas duas décadas, Petrycoski transformou a metalúrgica da família, até então um negócio quase artesanal, numa companhia que faturou quase 300 milhões
de reais no ano passado. Neste depoimento a Exame PME, ele fala como vem enfrentando o desafio de manter o crescimento numa empresa familiar.

Passei a infância brincando entre as peças de fogão a lenha que meu pai fazia na pequena metalúrgica que ele fundou em Pato Branco, no sudoeste do Paraná. Meu pai era um funileiro que saiu do Rio Grande do Sul com minha mãe e meus irmãos mais velhos no final dos anos 40 para morar no interior paranaense. Na época, muitos gaúchos migravam para a região em busca de terras baratas. Ao chegar, meu pai fundou a empresa, que batizou de Fogões Petrycoski.

Ainda era garoto quando comecei a fazer pequenos serviços na metalúrgica. No começo dos anos 60, meus irmãos começaram a cuidar
dos negócios, depois que meu pai machucou a coluna, num acidente de carro. Aos poucos, assumi mais responsabilidades e passei a viajar de caminhão a Porto Alegre e a São Paulo para comprar matéria-prima. Quando meus irmãos decidiram começar outros negócios, passei aos poucos a tomar conta da empresa.

No começo dos anos 80, as vendas de fogões a lenha cresciam todo ano, mas eu estava preocupado com o futuro. Não daria para continuar
a vida inteira fabricando o mesmo tipo de fogão que meu pai. Com os fogões a lenha, era difícil a empresa crescer além dos estados do Sul do
Brasil, onde faz muito frio no inverno e o calor do fogo ajuda a esquentar a casa. E mesmo nesses lugares as famílias começavam a substituir os velhos fogões a lenha por modelos a gás, que dão menos trabalho.

Um empreendedor precisa reinventar o negócio antes que os problemas apareçam. Por isso, quis produzir também fogões a gás. Em 1988, fiquei sabendo que os donos da paranaense Mueller Irmãos estavam em dificuldades e queriam vender o maquinário que usavam para produzir fogões a gás da marca Walter. Eu os procurei, apresentei uma proposta e eles aceitaram. Para fechar o negócio, precisei fazer um empréstimo no banco.

Não foi fácil fazer os novos fogões. As máquinas que comprei eram muito diferentes das usadas nos fogões a lenha e a dificuldade foi encontrar quem soubesse operar os equipamentos. No começo, não conseguíamos produzir mais do que quatro fogõespor dia. Na época, contratei alguns funcionários gaúchos com experiência em fazer fogões a gás e os trouxe para Pato Branco.

Levou tempo para tudo funcionar. Por isso, só alguns meses depois de comprar a Mueller Irmãos conseguimos produzir 40 fogões por dia, o bastante para fechar as primeiras vendas grandes. Como eu imaginava, os fogões a gás permitiram que a empresa ampliasse sua presença fora da Região Sul. Na metade da década de 90, já tínhamos clientes em praticamente todos os estados brasileiros.

No começo, atendíamos principalmente pequenas lojas de móveis com atuação regional. Muitos clientes começaram a reclamar que Fogões
Petrycoski era um nome muito difícil de pronunciar, e isso atrapalhava os vendedores na hora de oferecer os fogões. Muita gente falava Pentecostes, outros confundiam com Pedro Costa. Essa confusão atrapalhava meus planos de tornar o produto mais conhecido. Foi por essa razão que mudamos a marca dos fogões a gás para Atlas.

Em 2004, decidimos dividir a empresa em duas. De um lado, ficou a Atlas, com os fogões a gás, na qual sou sócio de minha ex-mulher e de um primo. Ainda tenho participação na Fogões Petrycoski, que é administrada por um irmão mais novo. O negócio de fogões a lenha praticamente não cresce, mas ainda se sustenta, com exportações para Argentina, Paraguai e Uruguai, onde também faz frio no inverno.

Em 2003, tomei uma decisão da qual mais tarde me arrependi. Fui procurado por uma cooperativa de funcionários responsável por administrar
a massa falida da Enxuta, fabricante de eletrodomésticos gaúcha que fazia máquinas de lavar e secar roupa. Achei que era uma boa oportunidade e investi 12 milhões de reais na compra das máquinas e na criação de uma subsidiária em Caxias do Sul.

Desde o início, o investimento só deu dor de cabeça. Fechei o negócio acreditando que poderia fazer um novo empréstimo no banco para renovar os produtos, mas o dinheiro não saiu. Fiquei sem recursos para investir e não consegui reestruturar a Enxuta como gostaria. As lavadoras e secadoras estavam defasadas em relação à concorrência, e nossos custos eram mais altos. Durante cinco anos, tentei de tudo para o negócio deslanchar, sem sucesso. Em 2008, fechei a fábrica de Caxias do Sul. Olhando para trás, acredito que meu grande erro foi ter
comprado a Enxuta sem ter planejado direito o que faria com ela.

A partir daí, concentrei forças na produção de fogões, que hoje considero a verdadeira vocação da Atlas. Na cozinha, mal sei ferver água para o chimarrão, mas de fogão eu entendo. Nos últimos anos, a Atlas cresceu fazendo modelos simples e aproveitando o crescimento da renda dos consumidores mais pobres. Quem comprou um fogão baratinho no passado agora está ganhando mais e quer um com forno autolimpante, acendimento automático e acabamento em inox. Por isso, estamos lançando modelos um pouco mais elaborados para esse público que está subindo na vida.

Uma grande dificuldade para pequenos fabricantes de eletrodomésticos eletrodomésticos é negociar com grandes varejistas, que têm enorme poder de barganha. Por isso, só recentemente, quando achei que a Atlas estava mais fortalecida, é que disputei espaço com grandes concorrentes do setor em lojas como Casas Bahia, Ricardo Eletro e Ponto Frio. Para isso, contratei executivos com experiência em companhias maiores, como a Electrolux, e que tinham traquejo para negociar com essas redes. Os principais diretores da Atlas de hoje fizeram carreira em grandes empresas do setor.

Nos últimos dois anos, comecei a me afastar aos poucos do dia a dia dos negócios para que não seja um baque quando eu quiser apenas aproveitar a aposentadoria. Hoje, sou presidente do conselho de administração. Também estamos implantando um conselho familiar para organizar a sucessão no comando e as relações dos sócios com a gestão. Já fui procurado por gente interessada em comprar a Atlas, principalmente quando estava em dificuldades com os problemas causados pela compra da Enxuta. Mas decidi que, naquela hora, era possível recuperar sozinho o equilíbrio. Meu objetivo é fazer a Atlas crescer ainda mais e deixá-la fortalecida para, quem sabe, negociar em melhores condições com investidores, caso minha ex-mulher e meu primo desejem.

Acredito que consegui um ótimo equilíbrio na gestão, mesclando membros da família com executivos mais experientes. Um de meus olhos trabalha na Atlas. Faço reuniões periódicas com os diretores para me manter informado sobre tudo o que acontece. Ultimamente tenho dedicado meu tempo ao trabalho em entidades empresariais com atuação em Pato Branco e em todo o estado do Paraná. Nas horas vagas, ainda gosto de estudar

Fonte: Exame.com – 24.12.2010

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