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Campo fértil: micro e pequenas agroindústrias crescem 10% a.a.

29/10/2010 12:00
Em Santo Antônio da Alegria, a 330 quilômetros de São Paulo, o produtor rural Adauto Augusto de Assis tem mais razões para comemorar do que o sucesso obtido na quermesse anual da cidade, que ajuda a organizar. O Sítio São Jorge, propriedade da família de Assis que produz café há um século, deve faturar R$ 12 mil em 2010, 30% a mais que o apurado no ano anterior. “Investimos em análise do solo, adubação adequada e acompanhamento técnico”, explica.

A pequena plantação de 12 hectares de café produz uma média baixa, de apenas 40 sacas por ano, vendidas nos municípios vizinhos a R$ 300 cada. Até 2011, a meta do agricultor é elevar a produção anual para 43 sacas – eram 28 há dez anos – e montar uma cooperativa com 30 produtores de café da região.

“Com a associação, não dependeremos mais de atravessadores, vamos economizar com compras coletivas de insumos e ganhar valor na hora da venda.” Para movimentar o caixa até lá, Assis experimenta há seis meses uma nova cultura. Em meio hectare, ele cultiva cogumelos e já produz mais de 400 quilos por colheita.

Assis se enquadra no perfil dos mais de 600 mil pequenos empreendedores rurais que, segundo especialistas, são responsáveis por 70% dos empregos no campo e precisam vencer desafios como a dificuldade de acesso ao crédito e na comercialização. Para garantir lucros no fim do mês, é preciso conhecer a legislação trabalhista, atender exigências sanitárias e estar a par de novas tecnologias de produção e gestão. Entidades como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e universidades rurais com vocação agroindustrial desenvolvem programas de apoio a esses proprietários.

“A maior dificuldade do empresário é atender exigências legais e conseguir que os produtos cheguem ao consumidor final”, explica Paulo Alvim, gerente de agronegócio do Sebrae Nacional.

No Brasil, as atividades mais exploradas pelo pequeno produtor do campo são o processamento de frutas, para a fabricação de geleias e licores; cultivo de hortaliças, leite e derivados, mel, sucos e bebidas de alambique. “Há cerca de 150 mil micro e pequenas agroindústrias registradas e 500 mil pequenas propriedades rurais, de base artesanal”, afirma Rafael do Carmo, analista de projetos do Sebrae-SP em Barretos. “A atividade cresce cerca de 10% ao ano e há muito espaço para expansão.”

Para manter o crescimento, é importante estimular a organização dos produtores em associações e cooperativas. “Esses mecanismos ampliam a capacidade de oferta e de negociação”, diz Alvim, do Sebrae, que desenvolve ações como capacitação gerencial, suporte à inovação e acesso a tecnologias, mercados e serviços financeiros. “Em parceria com o MDA, estamos treinando consultores e empreendedores na implantação e gestão de agroindústrias de base familiar.”

Na região de Barretos, o acesso ao crédito é uma das grandes dificuldades. No local, a atividade canavieira é uma das mais exploradas pelas pequenas propriedades, mas há iniciativas de fruticultura, olericultura, ovinocultura e pecuária de leite. “A maioria dos produtores não consegue oferecer as garantias pedidas pelos bancos e, quando conseguem, acabam na inadimplência por falta de um plano de negócios estruturado”, explica Carmo, do Sebrae-SP.

Para Alessandra Crestani, coordenadora do curso de agronomia da Universidade de Cuiabá (Unic), hoje há mais alternativas de financiamento para atender pequenas agroindústrias, agrupamentos rurais e cooperativas, com prazos mais estendidos. Criado nesta safra, o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) ampliou em R$ 650 milhões os recursos disponíveis em relação à temporada 2009/2010. O benefício é destinado ao financiamento de despesas de custeio da produção agrícola e pecuária, e garante um valor financiado de até R$ 275 mil por proprietário, em dois anos.

Em São Carlos (SP), a unidade de pecuária da Embrapa-Sudeste substituiu a necessidade de aportes por transferência de conhecimento. A entidade pilota o projeto Balde Cheio, criado em 2007 para viabilizar a produção leiteira em propriedades familiares. São aulas e palestras sobre tecnologias, manejo e contabilidade. Fazendas antes deficitárias aumentaram a entrega de leite, por hectare, em mais de 1.000% ao ano.

As propriedades assistidas pelo Balde Cheio têm até 20 hectares e cerca de 90% delas apresentavam produção diária inferior a 80 litros. Depois da ação da Embrapa, passaram a obter de 300 litros a mil litros ao dia. O projeto cobre quase quatro mil propriedades em 20 Estados e no Distrito Federal.

Em Serra Negra (SP), a Fazenda Sula, de leite orgânico, elevou a produção, mesmo reduzindo a área de pastagens e o número de animais. Em 2007, antes de entrar no programa, apresentava uma produção diária de 200 litros, com 72 vacas em 45 hectares. No ano passado, atingiu 500 litros, com 70 reses, em dez hectares. A meta para 2011 é chegar a mil litros por dia.

Fonte: Jacilio Saraiva – Valor Econômico 29.10.2010

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