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A mais antiga empresa familiar do país

30/11/2010 12:00
Quarta geração no comando do grupo Ypióca, Everardo Ferreira Telles tem nas mãos uma empresa com 163 anos de mercado. É uma das maiores fabricantes de cachaça do Brasil, com faturamento de R$ 200 milhões por ano.

Dia 31 de março de 1990. Essa data, Everardo Ferreira Telles, 66 anos, quarta geração no comando do Grupo Ypióca, não esquece. Acordado na madrugada com um telefonema, avisando sobre um incêndio na empresa da família, ele a princípio achou que não passava de um trote. Como o homem do outro lado da linha parecia cada vez mais desesperado, resolveu ir até o local. Mal dobrou a avenida que dava acesso à sede, enxergou as labaredas. A empresa, criada por seu bisavô Dario Telles de Menezes, em 1846, estava prestes a virar cinzas e, com ela, todo o trabalho de quatro gerações da família. “Nessa hora não adianta lamentar, tem que agir e, se preciso, até dar uma de louco para tentar salvar o que mais tarde vai ajudar a reerguer o negócio”, diz Telles. “Foi o que eu fiz. Gritei para os bombeiros que esquecessem a cachaça estocada e preservassem os arquivos dos clientes. Naquela época não havia computador, e todo o histórico da empresa era guardado em fichas.”

Foram três dias assistindo aos caminhões que recolhiam o entulho. Perderam a fábrica e 15 dias de produção, o equivalente na época a 15 mil caixas de cachaça. Para tentar reerguer a empresa, os fornecedores garantiram o abastecimento para pagamento futuro e os amigos colaboraram na construção da nova área com material e mão de obra. A única máquina menos avariada pelo fogo passou a produzir em uma área improvisada, coberta com lona. “Foi duro, mas em 120 dias já estávamos operando normalmente, apesar de a então ministra Zélia Cardoso de Mello negar a liberação do nosso dinheiro, confiscado com o Plano Collor”, afirma Telles. “É nessa hora que as empresas precisam estar bem capitalizadas para conseguir driblar os prejuízos sem depender de bancos.”

Quase 20 anos depois, o Dr. Everardo, como Telles é chamado pelos mais de 3 mil funcionários do grupo, ainda se emociona ao lembrar do incêndio. Chora, sem um pingo de vergonha. É um dos raros momentos em que ele afirma perder a serenidade, característica essencial aos empreendedores que buscam o sucesso. A serenidade a que ele se refere é sinônimo de equilíbrio para não se deixar abater demais pelos desafios e nem comemorar as vitórias em excesso, a fim de não perder o rumo do negócio. Foi com equilíbrio e uma boa dose de coragem que sob o seu comando o Grupo Ypióca cresceu 45 vezes em produção. Quando Telles assumiu, era um dos maiores fabricantes do país, com 500 toneladas de cana processadas por dia. Hoje, são 8 mil toneladas diárias. A produção, que era de 360 mil litros ao ano em 1978, saltou para 200 milhões de litros no ano passado. As fábricas também se multiplicaram. De uma, na década de 1970, chegaram a seis em 2009. A mais nova foi inaugurada em outubro, na cidade de Jaguaruana, a 180 quilômetros de Fortaleza, consumindo um investimento de R$ 80 milhões, segundo o empreendedor. É apontada como a maior indústria de cachaça do mundo, com capacidade instalada de 90 milhões de litros de aguardente por ano, e também uma das mais modernas no campo do etanol, com a oferta de um produto possível de ser usado na produção de álcool hidratado para combustível, indústrias farmacêutica e química; álcool anidro, próprio para compor a mistura com gasolina; e álcool neutro para a fabricação de bebidas.

Hoje, a Ypióca é líder na produção de aguardente de origem no Brasil. Detém 12% do mercado nacional de cachaça, disputando espaço com mais de 4 mil fabricantes. Em 2009, a empresa faturou R$ 200 milhões e obteve um resultado líquido de R$ 7 milhões. A exportação, iniciada no final da década de 60, consome apenas 5% da produção e segue para 42 países. Com cerca de 30 produtos em linha, entre a cachaça de combate, mais popular, as versões premium, as aromatizadas e as misturas da bebida, a Ypióca tem no envelhecimento um dos principais diferenciais de seus produtos. Desde o comando da terceira geração, a aguardente é estocada em tonéis de bálsamo e freijó por períodos que variam de um a seis anos. São 243 tonéis e 10 mil barris de carvalho. O envelhecimento é um fator importante, mas, segundo Telles, não é o único. Sempre que a empresa adquire uma torre de destilação, ela é desmontada e ganha partes especiais de cobre, o que garante maior sabor à cachaça. “As partes modificadas constituem um segredo que passa de pai para filho, que é, sem dúvida, um dos grandes trunfos da marca”, diz.

Telles ainda não sabe quem herdará o segredo. Dos seus sete filhos, cinco já atuam no grupo em cargos estratégicos. Todos foram preparados para assumir o bastão quando o patriarca se aposentar. “Os cinco têm formação acadêmica dentro e fora do Brasil, com vivência nos Estados Unidos e na Suíça, e, principalmente, têm disciplina, paixão e respeito pela empresa da família”, afirma Telles. “Aqui não há disputas. Há muito trabalho, planejamento e complementaridade de funções”, diz Aline Telles, 39 anos, diretora de marketing e a mais velha entre os irmãos. Disposto a organizar o planejamento sucessório, Telles procurou na década de 90 ajuda de uma consultoria, que reestruturou o organograma societário, orientou os herdeiros a encontrarem seus espaços no grupo e criou a holding. Ainda hoje a direção recorre à SM Consultoria como se fosse um conselho administrativo.

OLHO NO FUTURO | O pioneirismo é uma das marcas do grupo Ypióca

>>> É responsável pela primeira cachaça produzida no Brasil, em um alambique de cerâmica trazido de Portugal, no município de Maranguape, Ceará, em 1846

>>> A Ypióca, que em tupi-guarani quer dizer terra roxa, foi pioneira na produção industrial da bebida

>>> A marca foi responsável pelo envelhecimento da aguardente em tonéis

>>> A cachaça Ypióca surpreendeu os consumidores com o uso de conta-gotas. Até então as garrafas eram semelhantes às de cerveja

>>> Até 1968 nenhuma empresa havia exportado a cachaça brasileira. Sob o comando da terceira geração, a bebida chegou à Alemanha

>>> Foi a primeira a produzir em escala industrial cachaça à base de caju e a lançar aguardente com malte

Apesar da responsabilidade de estar à frente da mais antiga empresa familiar do Brasil, Telles diz que sua única preocupação é fazer as coisas benfeitas e dar o exemplo, porque ninguém pode exigir aquilo que não pratica. “Não quero saber quanto ganho, apenas se tenho recursos para pagar as despesas, reinvestir no negócio e poupar para as necessidades futuras. Com essa conduta é possível tocar uma empresa saudável e cuidar da integridade da marca, nosso maior ativo”, diz o empreendedor. O mercado reconhece o comportamento da Ypióca. Fornecedor de tampas plásticas e de alumínio para o grupo há 20 anos, Norberto Coelho, sócio da Plastamp, de São Paulo, afirma que um dos principais diferenciais da Ypióca é a segurança em honrar seus compromissos. “Uma das grandes vantagens em trabalhar com uma empresa familiar é poder tratar diretamente com quem toma as decisões e ter a certeza de que elas serão cumpridas”, afirma o empresário.

Na visão de Telles, muitas empresas quebram porque seus sócios não honram com a palavra, não têm um bom planejamento, são pouco disciplinados com o dinheiro, pensam que receita é lucro e se esquecem de investir em tecnologia. E não precisa ser um especialista para perceber que a tecnologia está presente em todas as áreas da Ypióca, até no campo. O plantio e a adubação são feitos mecanicamente, numa operação conjunta, assim como a colheita. A produção é totalmente automatizada e a força de vendas trabalha on-line com a matriz.

A sustentabilidade também está presente no negócio, desde o manejo, passando pelo corte livre de queimadas até a reutilização de 100% do bagaço produzido. Uma parte do material é aproveitada para a produção de energia elétrica, tornando a fábrica autossuficiente. Outra é transportada para um hidrolisador, que aumenta em até 86% sua digestibilidade e, após o beneficiamento com sais e vitaminas, permite o seu uso como ração. A última parte do bagaço é moída e aproveitada na compostagem e na fabricação de papel e papelão. O vinhoto é usado na fertilização do solo e a levedura, excedente do processo de fabricação, é desidratada e utilizada na alimentação de animais.

Telles entusiasma-se, ainda, ao dizer que a Ypióca é a única empresa no país a ter em seus laboratórios um cromatógrafo, aparelho de alta tecnologia que analisa todos os componentes da aguardente, menos o buquê, que fica a cargo de degustadores. Telles não bebe. “Mas, apesar de tudo ser monitorado por computador, não dá para dispensar os olhos do dono”, afirma o empresário. “Não me considero um gestor centralizador, aprendi com o tempo a delegar e a cobrar. Se algo não está certo, não amacio, pego firme e repreendo o responsável.” Para que nada escape ao controle, Telles costuma percorrer as fábricas pilotando o próprio helicóptero. “Se lá de cima vejo algo errado, desço e o bicho pega.”

O rigor na qualidade e a decisão de depender o mínimo possível de terceiros fez a Ypióca tornar-se, nos últimos 30 anos uma empresa verticalizada. Do plantio da cana às embalagens, passando pela produção e envasamento da cachaça, tudo é feito em casa. A diversificação da produção é uma das marcas da gestão de Telles. Embora a aguardente responda por 60% do faturamento da empresa, o grupo produz papel e papelão, garrafas pets, engarrafa água e atua no ramo da agropecuária.

“Hoje em dia não dá mais para viver de um único produto”, afirma. “O segredo para não perder o foco é buscar atividades ligadas às necessidades da empresa, como fizemos com as embalagens (veja o quadro abaixo). Quando sair do seu raio de atuação, procure trabalhar em parceria com quem conhece bem o mercado e domina a tecnologia. Tudo, é claro, com planejamento e pé no chão.”

VERSATILIDADE | O grupo Ypióca atua em várias frentes de negócios

INDÚSTRIA DE PAPEL E PAPELÃO
Inaugurada em 1992, em Pindoretama, a Pecém Agroindustrial utiliza o bagaço da cana como componente para a fabricação de papel e papelão. A capacidade produtiva é de 70 toneladas/dia de bobinas de papel e caixas de papelão, que são usadas na embalagem dos produtos da marca e de terceiros

ENGARRAFAMENTO DE ÁGUA
A Naturágua produz, engarrafa e distribui água mineral a partir de fontes naturais localizadas em uma propriedade de 10 hectares, na região da Lagoa Redonda, em Fortaleza. Os sistemas de extração e envasamento são mecanizados e a empresa hoje envasa em embalagens de 300 e 500 ml, 1,5 litro, 5 e 20 litros. É pioneira no abastecimento de água a granel

EMBALAGENS
Desde 1996, a Yplastic, com sede em Fortaleza, fabrica as garrafas PET e PVC do grupo Ypióca. É a única indústria de plástico do Norte e Nordeste a soprar garrafões de 5 e 20 litros. Abastece o grupo e produtores de medicamentos, cosméticos e alimentos

AGROPECUÁRIA
Atua em frentes diversificadas entre criação de gado de corte, produção de leite, criação de caprinos e suínos, hotel de bovinos, cultivo de milho e feijão, além da cana-de-açúcar

LAZER
O grupo criou no ano 2000, no engenho que abrigou a primeira geração da família Telles, em Maranguape, interior do Ceará, o primeiro museu da cachaça do Brasil. Lá, além de peças históricas, como o destilador de porcelana usado pelo fundador, está o maior tonel de madeira do mundo, com
374 mil litros de pura cachaça

Fonte: Revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios – Katia Simões – novembro/2010

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